25 de janeiro de 2014

[TEXTO] rosas


Eu gosto de bar. Desses que tem mesas na calçada em frente, ou dos que são fechados com mesas dentro. Gosto de bater papo, conversa fiada, assuntos diversos, da cerveja gelada, chopp, vodka, whisky e outras bebidas mais.. o assunto rola até de madrugada e não é raro acabar com o dia clareando.
Mas tem duas coisas que eu não gosto em bar, música ao vivo e vendedores de rosa.
Nesse momento vão me chamar de chato, implicante e insensível, mas eu explico. Vou para bar pra conversar e beber, a música ao vivo atrapalha, pois é alta e tira a atenção das pessoas. Ver um artista tocando e tratá-lo como som ambiente é também uma coisa muito chata. Quem toca nos bares geralmente é o artista de pequeno e médio porte, em muitos casos sem talento nenhum e que canta a música dos outros por poucos tostões, para entreter.. claro, que pra ouvir música dos outros prefiro que coloquem um dvd do próprio artista e num volume suficiente para que se possa fazer o que se vai fazer num bar, não preciso de ninguém pra me entreter num bar. No mais, os repertórios raramente agradam os meus ouvidos.. mas tem um ou outro que não chegam a incomodar, tampouco a emocionar. Porque música é uma linguagem da emoção, ela é feita para tirar sorrisos e lágrimas, para aliviar a alma inquieta. Então aquele cantor que senta num banquinho e não emociona é alguém que pode ser substituído por um cd ou dvd sem nenhum constrangimento.. dá pra beber mais uma cerveja.
Mas tem os grandes artistas. Aqueles que as vezes você nunca ouviu falar, mas que na primeira nota paralisa todo o bar, cala a conversa e seca os copos. São raros mas estão espalhados por aí.. quem acompanha este meu blog nem precisa perguntar de quais estou falando. A esses artistas todo o meu respeito e admiração. Vou para assisti-los e não para conversar e beber simplesmente. Pago o cachê com gosto, como se estivesse entrando numa casa de shows ou num teatro.
E continua a noite... desce mais uma. Mais conversa, muda o assunto, risadas altas, de repente aparece aquele homem com um bouquet de rosas vermelhas. Se eu estou com alguma mulher na mesa (e isso não é raro acontecer) ele vem direto, com a rosa esticada em nossa direção, como se o gesto de presentear a dama fosse uma obrigação inquestionável. Mas ele não sabe que eu sou designer, e como todo bom designer analiso o mundo por representação, o que cada coisa, gesto, sorriso, choro, atitude representa e comunica. A comunicação não verbal é a mais utilizada pelo ser humano e muitas vezes impensadamente. Os símbolos são coisas que deveriam ser mais percebidos na vida. Então percebam:
Estou te dando uma flor morta, arrancada de seu pé no momento em que está extremamente linda, mas que em menos de uma semana vai apodrecer e você vai jogá-la fora. Chega a ser mórbido, e extremamente sutil. Como podemos comparar este gesto com um gesto de amor? Ou seja, quero um relacionamento de momento, quero seu sorriso, seus beijos e seu sexo agora, apenas a sua beleza momentânea,  mas em menos de uma semana nunca mais vai me ver e o nosso amor vai morrer. É de uma canalhice sem tamanho. Onde está o romantismo cantado em verso e prosa neste gesto? Mas as mulheres gostam, nem todas, bem verdade. Quem nunca ouviu a frase "adoro receber flores". como dizem por aí "troféu de puta". Corro dessas e corro de vendedores de rosas também.
E continua a noite... desce mais uma. O papo tá bom! mas clareou e é hora de pedir a conta. Então passa a régua.

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