"Tu tens uma voz linda!", disse ela do outro lado do aparelho celular.
Aí eu pensei, como assim? voz linda eu? Nossa e eu havia mandado várias músicas pra ela do Zé Alexandre, Zé Renato, Cláudio Nucci, Flávio Venturini. Quando era mais novo, tocava violão e ficava frustrado que a minha voz não me acompanhava e não me obedecia. Desisti do violão (apesar dele ainda ficar me olhando saudoso de cima do armário) e nunca sequer entrei numa aula de canto. De que adiantaria...
Tá bem. Havia me derramado em elogios, em carinhos e tudo mais, via emails, msn, e esta era a primeira vez que nos falávamos por telefone. Havia aí uma certa mágica, era meu aniversário de 40 anos, então tomei o elogio como uma forma de agradecimento por todas as conversas, todo o carinho e interesse que eu demonstrei por ela.
Mas voz linda?
Quando eu escuto o Zé cantar eu fico em estado de graça, às vezes nervoso, achando que em alguns momentos ele não vai conseguir alcançar a nota no fim da frase. Chega a dar um frio na barriga (não sei bem se seria frio o termo), mas então quando ele chega na nota, sem nenhuma dificuldade e ainda fazendo firula, deixando claro que ficaria mais meia-hora nela, aí não tem como sentir um prazer imenso, indescritível, aliviante. Ele consegue com a voz mexer com os sonhos de uma pessoa, espantar os males da vida (como dizem por aí), alimentando a alma a cada nota realizada, com o timbre certo, único, perfeito, sublime!
Aí eu volto a pensar na minha "voz linda". Putz! que blasfêmia. Me lembra o Salieri da história de Mozart.
Mas a minha voz soube alcançar um coração, fazer que ele se sentisse querido, cuidado, amado. Fosse ela qual fosse, teria que ser chamada de linda, não pela beleza em si, mas pela atitude, pelas palavras ditas.
Muita petulância minha.
Foi mal Zé, são as coisas que só o amor explica.
Essa conversa de vozes me lembra a música VOZ, do Paulo César Pinheiro e Sérgio Santos, gravada no disco mais recente do Cláudio Nucci. Diz assim:
Voz (Sérgio Santos/P.C. Pinheiro)
Abençoada a voz do ser que canta
Possui a alma irmã do passarinho
Os males desta vida ela que espanta
Por causa dela um povo se levanta
Quem canta acende a estrela do caminho
Visionário, adivinho
Abençoada a voz do ser que canta
É feito voz de mãe, só faz carinho
e mãe cantar pra filho é coisa santa
É oração que brota da garganta
Quem canta está rezando ali sozinho
Evangelhos, pergaminhos
Canta que a força que conduz o ser que canta cria luz
E a luz é tanta que ela deixa o ser suspenso
E quem canta fica imenso
Mas pra essa luz se refletir
O ser que escuta tem que ouvir
Em silêncio
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